Polícia Civil conclui investigação e aponta desvio de R$ 4,3 milhões da Prefeitura de Joaçaba; tesoureiro é o único indiciado
A Polícia Civil de Santa Catarina, por meio da Delegacia de Investigação Criminal (DIC) de Joaçaba, concluiu o inquérito que apurou o desvio de recursos financeiros da Prefeitura de Joaçaba. A investigação, que se estendeu por aproximadamente nove meses, identificou um prejuízo estimado em R$ 4,3 milhões aos cofres públicos entre 2017 e 2026.
Os detalhes foram apresentados na tarde desta segunda-feira, 05/10, durante entrevista coletiva realizada no Auditório da Delegacia de Polícia Civil de Joaçaba, pelos delegados André Cembranelli, responsável pela conclusão da investigação, e Gilmar Bonamigo, delegado regional.
Um dos principais pontos revelados pela Polícia Civil é que, apesar do elevado volume de recursos movimentados, apenas o então tesoureiro da Prefeitura foi indiciado. Conforme os investigadores, não foram encontrados, no curso do inquérito, elementos que apontassem para a participação ou responsabilização penal de outras pessoas, seja dentro da Prefeitura ou fora dela.
868 desvios identificados
Segundo o delegado André Cembranelli, foram identificadas 868 condutas de desvio ao longo do período investigado.
O levantamento mostra ainda que os valores retirados dos cofres públicos aumentaram progressivamente com o passar dos anos. No início, as operações envolviam quantias menores, na faixa de R$ 2 mil ou R$ 3 mil. Com o tempo, os valores foram crescendo e chegaram a movimentações de aproximadamente R$ 20 mil.
A investigação aponta que, em 2017, os desvios somaram cerca de R$ 111 mil. Já em 2024 e 2025, os valores anuais ultrapassaram a marca de R$ 1 milhão.
Para a Polícia Civil, o crescimento dos valores indica que o investigado teria ampliado gradativamente a quantidade de recursos desviados à medida que adquiria confiança e conseguia manter o mecanismo utilizado para ocultar as operações.
Maquiagem contábil
De acordo com Cembranelli, o esquema envolvia uma espécie de “maquiagem contábil”, utilizada para evitar que os desvios fossem imediatamente percebidos na movimentação financeira da Prefeitura.
A existência de alterações e mecanismos destinados a reduzir a possibilidade de identificação das irregularidades também já havia aparecido nas apurações da CPI instalada pela Câmara de Vereadores. Em depoimentos colhidos pela comissão, servidoras relataram que o então tesoureiro teria alterado relatórios financeiros para reduzir os valores registrados e realizar transferências sem provocar discrepâncias aparentes entre receitas e despesas.
Para onde foi o dinheiro?
Outro aspecto investigado pela Polícia Civil foi o destino dos R$ 4,3 milhões.
Do total apurado, aproximadamente: R$ 1,4 milhão foi sacado em espécie; R$ 700 mil foram utilizados na aquisição de jogos de loteria; R$ 2,2 milhões foram transferidos para pessoas próximas ao investigado.
As pessoas que receberam os valores foram ouvidas durante a investigação. Segundo a Polícia Civil, todas afirmaram desconhecer a origem ilícita dos recursos e não apresentaram aumento patrimonial compatível com os valores recebidos.
A investigação também procurou identificar eventual evolução patrimonial do próprio investigado e de pessoas próximas a ele. Conforme os delegados, não foi constatado aumento patrimonial que correspondesse ao montante desviado.
Investigação começou com Bonamigo e foi concluída por Cembranelli
O delegado regional Gilmar Bonamigo iniciou os trabalhos investigativos, com a coleta de depoimentos de testemunhas e de pessoas que poderiam ter alguma relação com os fatos.
Durante o andamento da investigação, porém, houve mudança na titularidade da DIC de Joaçaba. A partir daí, o delegado André Cembranelli assumiu a análise do material e a conclusão do inquérito.
A Polícia Civil informou ainda que foram realizados pedidos judiciais às instituições bancárias para obtenção de dados telemáticos. Mesmo sem o recebimento dessas informações até o momento da conclusão, a corporação decidiu finalizar o inquérito com os elementos já reunidos.
CPI chegou a apontar valor superior a R$ 8 milhões
A conclusão da Polícia Civil apresenta um valor de R$ 4,3 milhões em desvios apurados no âmbito do inquérito. O número é diferente daquele levantado pela Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara de Joaçaba.
Em maio, a CPI já havia apontado mais de R$ 8 milhões em transferências suspeitas e, posteriormente, chegou a um montante de aproximadamente R$ 8,4 milhões. A comissão também investigou a saída de recursos públicos para contas pessoais do então tesoureiro.
A conclusão da Polícia Civil, entretanto, ganha um contorno diferente ao apontar que não foram encontrados elementos para responsabilizar criminalmente outras pessoas além do então tesoureiro.
O inquérito será encaminhado às autoridades competentes para as providências cabíveis.








