Lagoa de decantação do SIMAE: Solução do problema exige investimento de mais de R$ 50 milhões
A polêmica envolvendo o mau cheiro das lagoas de decantação do SIMAE, em Herval d’Oeste, voltou ao centro do debate público após reclamações de moradores do bairro Nossa Senhora Aparecida. O tema, no entanto, vai muito além do incômodo pontual provocado pelo odor e revela um conflito urbano e ambiental construído ao longo de décadas.
Em entrevista à Rádio Catarinense, o químico do SIMAE, Paulo Lamin, que também já ocupou a presidência do consórcio, explicou que a Estação de Tratamento de Esgoto de Herval d’Oeste é um projeto concebido ainda na década de 1980 e inaugurado em 1991. À época, segundo ele, a escolha do local seguiu rigorosamente o que previa a legislação e o plano diretor do município.
“Quando a estação foi implantada, aquela região era praticamente rural. O entorno era classificado como área industrial e de preservação ambiental. Não havia possibilidade legal de instalação de residências naquele local”, destacou Lamin.
A lógica era simples: a tecnologia disponível naquele período, baseada em lagoas de tratamento, já era conhecida por eventualmente gerar odores. Por isso, a estação foi estrategicamente instalada longe da área urbana. O cenário começou a mudar anos depois, quando o crescimento da cidade avançou sobre áreas antes desocupadas.
Com o passar do tempo, loteamentos foram surgindo no entorno da estação e, em 2013, o município alterou a legislação, transformando a área ao redor das lagoas em zona residencial. Foi ali, segundo Lamin, que se consolidou o atual conflito de interesses. “A estação permaneceu no mesmo lugar, mas a cidade chegou até ela”, resumiu.
Do ponto de vista técnico, o químico explicou que o mau cheiro não é causado diretamente pelo esgoto, mas pelo processo biológico de tratamento. Em condições de ausência de oxigênio, determinadas bactérias produzem o chamado gás sulfídrico, responsável pelo odor semelhante a ovo podre. As medidas adotadas atualmente — como a instalação de aeradores e a introdução de bactérias concorrentes — ajudam a reduzir o problema, mas não são suficientes para eliminá-lo de forma definitiva.
A solução estrutural passa por uma reformulação completa da estação, com mudança no conceito de tratamento para um sistema de aeração prolongada, capaz de eliminar essas bactérias causadoras do odor. O problema é o custo.
Segundo Lamin, os investimentos necessários para essa transformação devem ultrapassar a marca dos R$ 50 milhões. “É uma mudança profunda na infraestrutura. Não estamos falando de ajustes pontuais, mas de uma nova estação dentro da estação”, afirmou.
O processo, porém, enfrenta entraves. Uma primeira empresa contratada para elaborar os projetos não conseguiu entregá-los, resultando na rescisão do contrato. Uma segunda empresa está em fase final de elaboração, embora já acumule atrasos e sofra multas diárias. A expectativa é de que os projetos sejam concluídos nos próximos meses, abrindo caminho para a etapa mais complexa: a captação de recursos e a execução das obras.
Enquanto isso, o SIMAE afirma manter diálogo aberto com a comunidade. Lamin reforçou que a autarquia está disposta a apresentar os projetos aos moradores, detalhar as soluções técnicas e esclarecer que o problema é reconhecido e está sendo tratado dentro das possibilidades financeiras e legais.
O caso escancara um dilema comum em cidades que cresceram sem planejamento de longo prazo: estruturas essenciais, instaladas longe da população no passado, acabam cercadas pela expansão urbana. Resolver esse tipo de conflito exige tempo, dinheiro e decisões que ultrapassam gestões, mas que se tornam inevitáveis quando a cidade muda — e cobra soluções à altura.
Por Marcelo Santos





