Quando um cachorro vira manchete e 26 viram estatística
O assunto mais comentado da semana em Santa Catarina foi a morte do cão “Orelha”: Assassinado numa praia de Florianópolis, provocou revolta, comoção e debate. O caso, que envolve jovens de classe média alta, ganhou repercussão nacional e dominou o noticiário e as redes sociais, inclusive com manifestação em vídeo do Governador de SC e do RS.
No próximo domingo, em Joaçaba, uma ONG de proteção animal organiza um protesto em memória de Orelha. A mobilização reflete um sentimento legítimo de indignação diante da crueldade contra um animal indefeso. Mas o contraste chama atenção.
No ano passado, em Herval d’Oeste, 26 cães morreram envenenados em três ataques sucessivos. Vinte e seis vidas interrompidas. Uma mulher confessou o crime, o caso foi encaminhado ao Ministério Público, e ainda assim a repercussão foi mínima. Não houve comoção estadual, nem mobilizações expressivas, tampouco debate prolongado.
A reflexão necessária não diminui a gravidade do que aconteceu com Orelha. Toda violência contra animais é INACEITÁVEL. A questão é outra: por que alguns casos mobilizam multidões enquanto outros desaparecem no silêncio?O cenário pesa. Uma praia conhecida, imagens fortes, personagens facilmente identificáveis.
Tudo isso constrói uma narrativa que choca e viraliza. No interior, longe dos holofotes, a brutalidade parece perder valor-notícia, mesmo quando atinge proporções muito maiores.A indignação, nesse contexto, revela um traço preocupante: ela nem sempre acompanha a gravidade do fato, mas a visibilidade que ele alcança. Não é apenas a crueldade que revolta, mas o quanto ela circula.
O caso de Orelha abriu um debate importante — e talvez ele precise ir além de um nome, um rosto e um lugar. Precisa alcançar também as mortes que não tiveram espaço nas manchetes, os crimes que não viraram símbolo e os animais que morreram sem provocar cliques ou protestos. E justiça, assim como empatia, não deveria depender do CEP, da classe social ou do alcance de uma postagem .Essa é a discussão que realmente importa.





